segunda-feira, 27 de julho de 2026
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*Ano 1952 Edição 00003 (1)*
*DIARIO DE PERNAMBUCO*
*Continuam os banhos na Cambôa, atraz do matadouro dos Peixinhos*
*Desobediencia a uma determinação do secretario de Saude e Assistencia — De nada valeu a proibição — Onde os urubús se tornam elementos preciosos á limpeza publica — Sem mercado e sem agua*
Ha coisas no Recife que não podem continuar. Não basta chamar sobre elas a atenção das autoridades. E' preciso insistir. A promessa de corrigir quasi sempre cai no esquecimento. E as coisas continuam como dantes.
O caso de Peixinhos, subúrbio onde está localizado o Matadouro Municipal, em cujas redondezas vive uma população de milhares de pessoas, permanentemente ameaçadas pelas condições de promiscuidade ali dominantes.
*O SOLAR DOS URUBÚS*
Ontem á tarde, voltou nossa reportagem aos Peixinhos, afim de atender a insistentes apelos de moradores daquella zona, que não se conformam com o humilhante espetaculo que pela manhã e á tarde, pode ser observado no braço de rio que corre atraz do Matadouro Municipal!
Já uma vez, denunciamos ás autoridades competentes, e ali comparecia, inclusive, em companhia de um dos nossos repórteres, o proprio secretario de Saude e Assistencia, sr. Orlando Parahym. E' que, naquella cambôa, que recebe o sangue e as fezes dos animais abatidos, atravez de esgotos, crianças das redondezas continuam a banhar-se e a lavar roupa, sujeitando-se assim, á contaminação por moléstias de origem bacteriologica.
Foi diante de tal espetaculo, inconcebivel em qualquer parte do mundo civilisado e assistido pelos proprios olhos, que o sr. Orlando Parahym determinou a prohibição daquelles banhos fetidos, em que meninos mergulhavam na terra negra do mangue, misturando-se com detritos e sangue podre. A proposito, o sangue dos animais abatidos no Matadouro Municipal de Peixinhos não é aproveitado, como seria em qualquer matadouro de centros mais adiantados, atravez de processos chimicos, transformado em substancias alimentares para o proprio gado a ser abatido.
No Matadouro Municipal de Peixinhos, mais conhecido como o "Solar dos Urubús", pela enorme quantidade dessas aves ali existentes e rondando nos ares, nada disso acontece. E' impossivel descrever a nargem do cambão que fica atraz do Matadouro, onde os meninos tomam banhos. Banhos que o secretario da Saude prohibiu em boa hora
Mas a autoridade sanitaria, como a policial, destacadas naquelle local, preferiram fazer ouvidos de mercador á oportuna medida.
*OS URUBÚS, ESSES EXTRAORDINARIOS*
O Matadouro, fomos informados, não possue um forno crematório para a ossada do gado e suino abatidos. Ha um forno apenas para queimar os animais doentes. De modo que as visceras, de mistura com os pelos, queixadas, caveiras, cascos, crabadas e pelancas dos porcos e rezes mortas, são jogadas (confirmaram-nos a probidade do diretor do Matadouro, segundo fomos informados) á margem do braço do rio, que ali tem o nome de rio de Peixinhos.
E é dessa circunstancia, residente nas proximidades, o local, donde exala um cheiro insuportavel, originado dos elementos em decomposição, nos encargados da Limpeza Publica.
— "Não" — foi a resposta. — "Esse trabalho é feito, aqui, pelos urubús. São eles que fazem a nossa felicidade. Nunca lhes damos qualquer remuneração. Comem as pelancas e jogam as ossadas na maré..."
Tambem já tivemos ocasião de relatar, em outra historia, o caso do eletricista José Xavier Cavalcanti de Albuquerque, residente nos Peixinhos, abrigado num mocambo de dois pavimentos. O mocambo, segundo nos disseram, era uma velhantem, está quasi ruindo. Alem dos pais, abriga aquele miseravel casebre oito crianças, cujas idades variam dos quatro aos 14 anos, como nos disse José Xavier Cavalcanti de Albuquerque que inscreveu-se para uma ca-sa do grupo que o Serviço Social Contra o Mocambo está construindo, em Casa Amarela. Meio, surrateiro, com familia numerosa, o filhinho caçula doente, vem a apelar por nosso intermedio ao governo do Estado, animando-se a tanto, nesse caso, pois talvez o mocambo não resista á proxima invernada. Pede, por conseguinte, ao sr. Agamenon Magalhães uma das casinhas antes, uma vez que a Vieira de Melo, ora em construção no municipio de Olinda.
*BANHOS E MERCADO*
Nos Peixinhos, não há mercado. O mercado ali existente (se é que pode ser chamado mercado) pertence ao sr. José de Souza. E um imenso salão em terra batida, coberto de palhas, abrigando as bancas de carne e roçado de estendinhas. Mercadoria, quando de nossa visita dos segundos sanitarios.
Quanto nos banhos, são all explorados pelo vereador José de Moura, de Olinda, que os cobra á razão de cincoenta centavos. Segundo informou-nos, as explorações, utilizam-se seu banheiro publico cerca de oito a dez pessoas por dia, enquanto nos sabbados e domingos essa frequencia ascende á um numero maior...
Por ai se vê, claramente, a que é a hygiene nos Peixinhos.
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